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Coordenador Geral Pr. Antony Steff Gilson de Oliveira

APOSTILA N. 32/300.000 MIL CURSOS GRATIS EM 12 PAGINAS.

Apostila 32

NOVOS TEMPOS, VELHAS CRENAS:
Crtica do Neo-Paganismo sob uma tica Crist
Em 1925, o lendrio pensador cristo ingls G. K. Chesterton (1) afirmou que, se no houvesse sido pelo surgimento e fortalecimento da igreja crist, a Europa teria
continuado pag, a civilizao ocidental no teria jamais existido na forma como a conhecemos, e, culturalmente, "a Europa seria hoje muito parecida com a sia."
(2) Chesterton sugeriu ainda que, 

se o paganismo clssico houvesse se prolongado at hoje [no ocidente]... haveria ainda pitagricos ensinando reencarnao, assim como ainda h hindustas ensinando 
reencarnao na sia. Haveria ainda esticos criando uma religio a partir da razo e da virtude, assim como ainda h confucionistas na sia criando uma religio 
a partir da razo e da virtude. Haveria ainda neo-platonistas estudando verdades transcendentes cujo sentido seria misterioso para as outras pessoas e disputado 
at mesmo entre eles, assim como ainda h budistas na sia estudando um transcendentalismo misterioso para os outros e disputado at mesmo entre eles. Haveria ainda 
apolonianos inteligentes aparentemente adorando o deus-sol mas explicando que na verdade eles adoram o princpio divino, assim como ainda h na sia zoroastrianos 
aparentemente adorando o sol mas explicando que esto adorando a divindade. Haveria ainda dionisacos danando selvagemente nas montanhas, assim como ainda h na 
sia derviches danando selvagemente no deserto. Haveria ainda multides indo s festas dos deuses... e haveria muitos deuses para serem adorados, como h na sia, 
ainda pag... Haveria ainda sacrifcios humanos secretos a Moloque, assim como ainda h na sia sacrifcios humanos secretos  deusa Kali. Haveria ainda muita feitiaria, 
e boa parte dessa feitiaria seria magia negra. Haveria ainda muita admirao por Sneca, e muita imitao de Nero, assim como na sia os elevados epigramas de Confcio 
coexistiram com as torturas chinesas. (3) 

Talvez Chesterton nunca tenha chegado a perceber que suas palavras eram profticas. A civilizao ocidental h muito j caminhava a passos largos para um quadro 
impressionantemente semelhante ao pintado por ele, um quadro que hoje  a reproduo fiel da religiosidade moderna. O que Chesterton no previu foi que o chamado 
neo-paganismo teria caractersticas muito piores que as do antigo paganismo - a cosmoviso religiosa da antigidade que havia sido posta de lado com o surgimento 
da igreja e a converso da Europa ao cristianismo. A casa foi varrida, mas, como nas palavras de Cristo relatadas por Mateus, o ltimo estado tornou-se pior do que 
o primeiro (Mt 12.43-45).

I. Ascenso e Queda do neo-paganismo (e algumas questes metodolgicas)

Uma das principais caractersticas da chamada Era Moderna (scs.16-20) foi o surgimento do neo-paganismo, cuja decadncia estamos hoje assistindo naquilo que tem-se 
chamado de "Nova Era". Esse "movimento" religioso no , portanto, genuinamente novo, e nem  na verdade um movimento, e, acima de tudo, no  de fato ps-moderno, 
como alguns tm sugerido. O ps-modernismo implica em ir alm do beco sem sada da modernidade e inclusive da tpica religiosidade moderna. (4) A chamada Nova Era 
pode ser tudo menos ps-moderna. Pelo contrrio, ela  modernssima. Mas, nesta fase de transio em que estamos vivendo, ela representa o modernismo no no seu 
apogeu, mas sim na sua mais completa decadncia. (5) 

O neo-paganismo no  novidade. Trata-se, para comeo de conversa, da recuperao e apropriao da mentalidade religiosa da antigidade pr-crist. Como ironicamente 
sugeriu Chesterton, "trata-se de uma profunda verdade que o mundo antigo era mais moderno que o mundo cristo." (6) Isto , a Idade Moderna est mais prxima do 
paganismo que do cristianismo. Alm disso, o neo-paganismo no  novo porque esta recuperao e apropriao tiveram incio h seis sculos atrs, no princpio da 
chamada Idade Moderna. Os primeiros a estarem envolvidos nesse processo de reapropriao do paganismo foram os humanistas dos sculos XV e XVI. Numa atividade genuinamente 
arqueolgica, esses pensadores e fillogos dedicaram suas vidas  recuperao da literatura e cultura da antigidade greco-romana. (7) Essa atividade no  condenvel 
per se. Porm, uma vez levada a cabo, permitiu a reapropriao da mentalidade pag por parte dos eruditos europeus da poca que sentiam-se insatisfeitos com o cristianismo 
e a religiosidade que lhes era oferecida. Em parte, essa insatisfao  compreensvel, uma vez que a igreja da poca vivia talvez a maior crise espiritual de sua 
histria. Mas nem todos os humanistas sentiram-se atrados pela religiosidade pag. Muitos consideraram mais sensato lutar por uma reforma eclesistica e ansiar 
por um avivamento espiritual. Tanto o avivamento quanto a reforma vieram por fim a acontecer, fruto, em grande parte, do esforo desses mesmos pioneiros humanistas. 
Nesse sentido, os lderes da Reforma Protestante tambm eram humanistas, sem deixarem de ser cristos. (8) A verdade, porm,  que a semente do neo-paganismo foi 
igualmente lanada nos campos da intelectualidade europia, e os primeiros frutos maduros dessa semeadura foram colhidos nos sculos subseqentes, dando por fim 
incio ao movimento intelectual conhecido pelo nome de Iluminismo.

O Iluminismo do sculo XVIII representou o estabelecimento definitivo do neo-paganismo como o ideal intelectual por excelncia da modernidade. (9) Todos os mais 
importantes pensadores iluministas ou rejeitaram o cristianismo por completo, trocando-o por uma mentalidade religiosa pag (Diderot, D'Holbach, Hume), ou procuraram 
adaptar a f crist s concepes helenistas recm-recuperadas e assimiladas, produzindo heterodoxias gritantes como o desmo (John Locke, John Toland, Voltaire, 
La Metrie) e a teologia kantiana. (10) A maonaria  outra aberrao neo-pag que teve origem no iluminismo francs. Tanto os tericos da Revoluo Francesa quanto 
os "Pais" federalistas americanos, tericos da Revoluo Americana, estavam alicerados na filosofia iluminista e no neo-paganismo. O Modernismo havia chegado ao 
seu apogeu. Os sculos subseqentes, XIX e XX, assistiriam a partir de ento ao lento declnio da modernidade (o marxismo e o existencialismo marcam, por exemplo, 
e de formas diferentes, esse declno). Entretanto, nunca o declnio do neo-paganismo esteve to evidente quanto agora, em que ele se manifesta em suas formas mais 
cruas e vulgares, nos diferentes componentes desse conglomerado de noes religiosas pags que chamamos de Nova Era. Cabe-nos, portanto, enquanto pensadores cristos, 
compreender a natureza do neo-paganismo, um aspecto importante da histria da teologia moderna, e tambm da realidade diria destes tempos de transio em que estamos 
vivendo.

A Nova Era , sem dvida, um fenmeno cultural, mas no  propriamente uma religio, uma nova organizao religiosa; no possui lderes explcitos, membros, estrutura 
hierrquica, estatutos, confisso de f, etc. Diferentemente do que muitos livros evanglicos populares querem nos fazer crer, a Nova Era no  tampouco uma conspirao 
secreta. (11) Este tipo de sensacionalismo evanglico patrocinado pela liderana de nossas igrejas, estimulado por outra falcia teolgica chamada "batalha espiritual", 
possui um grave efeito nocivo. (12) Ns, cristos, passamos a lutar contra um inimigo inexistente, um fantasma, uma fico da nossa imaginao, em vez de enfrentarmos 
a verdadeira horda que nos cerca. A miscelnia chamada Nova Era  composta de manifestaes neo-pags diferentes umas das outras, que vo desde popularizaes de 
religies orientais como o hindusmo, o budismo e o taosmo, at as mais crassas supersties pags como astrologia, o poder curativo dos cristais, adivinhaes 
e necromancia. Ns, brasileiros, muito antes de importarmos dos Estados Unidos o conceito de Nova Era, j estvamos h muito tempo acostumados com as formas mais 
decadentes da religiosidade moderna, pois o espiritismo  um excelente exemplo de neo-paganismo. Do ponto de vista apologtico, cada uma dessas manifestaes neo-pags 
deve ser combatida e derrotada individualmente, e no como uma amlgama informe e uma abstrao, como freqentemente tem acontecido. 

Isso no significa, por outro lado, que o fenmeno no possa ser analisado do ponto de vista antropolgico, filosfico ou teolgico. Sem dvida, cabe-nos buscar 
compreender o neo-paganismo em termos genricos. Isso no  contraditrio, pois esta anlise no tem por objetivo a mistura e a confuso das diferentes manifestaes 
neo-pags sob um mesmo rtulo e o subseqente confronto apologtico com esta quimera, este monstro de Frankenstein, composto de partes juntadas de diferentes corpos 
e origens. Essa "arqueologia epistemolgica" (13) implica em descobrir as pressuposies fundamentais do fenmeno, e produzir dessa maneira um arsenal de noes 
filosficas e teolgicas que possam de fato auxiliar no combate especfico e individual dessas diferentes expresses religiosas neo-pags. (14) 

II. O Paganismo, o Neo-Paganismo e a F Crist: Esboo de um Estudo Comparativo

A religiosidade pag nada mais  que o esprito humano submetido  fora da gravidade, isto , limitado a um estado de mnima resistncia. Em outra palavras,  a 
religiosidade humana no seu estado natural, sofrendo a presso e o impacto da Queda em toda a sua inteireza. (15) O termo "paganismo" vem da palavra latina pagani 
que significa "camponeses" ou "gente do campo, do interior". O termo pagani ganhou a conotao atual porque esses camponeses foram os ltimos a se converterem ao 
cristianismo aps sua instituio no sculo IV como religio oficial do Imprio Romano, e os ltimos a abandonarem as crenas e prticas da religiosidade greco-romana. 
(16)  curioso notar que, inversamente, o neo-paganismo teve origem nas cidades, e at hoje  nos grandes centros urbanos e nos pases mais desenvolvidos que o mesmo 
encontra maior aceitao e menos resistncia.

 um erro pensar que o paganismo  uma grande tolice, que nada tem de aproveitvel (ainda que o decadente neo-paganismo s vezes nos deixe essa impresso). Chesterton 
resume brilhantemente a histria espiritual da humanidade em uma de suas frases mais famosas: "O paganismo era a melhor coisa que havia no mundo; e a f crist surgiu, 
e era melhor ainda. E tudo o mais depois disso tem sido comparativamente pior e pequeno." (17) Como sugere Rist, (18) Agostinho, assim como muitos outros intelectuais 
convertidos ao cristianismo nos primeiros sculos da era crist, "viu sua converso no tanto como uma substituio mas como uma expanso e um enriquecimento de 
suas posies anteriores." (19) H pelo menos trs elementos no paganismo pr-cristo que o fazem respeitvel: (i) um senso de piedade, (ii) uma moralidade objetiva 
e absoluta, e (iii) um senso de transcendncia, de percepo do divino e de respeito em face do misterioso. (20) O cristianismo resgatou o que o paganismo possua 
de melhor  luz da revelao divina, num lento processo que teve incio no primeiro sculo e seguiu-se at o fim da Idade Mdia. (21) No neo-paganismo do nosso tempo 
esses elementos desapareceram, e o que sobra  o invlucro, a superfcie, a superstio vazia e irracional. O neo-paganismo , portanto, no somente um anti-cristianismo 
mas tambm um anti-paganismo, por incrvel que parea. Analisemos cada um destes elementos isoladamente.

A. Piedade

O senso de piedade (latim pietas) a que estamos nos referindo refere-se ao instinto religioso natural de respeito a algo maior que o ser humano. Isto implica na 
humildade de se reconhecer como parte subordinada do grande processo e esquema universal. Vemos o reflexo dessa mentalidade no neo-paganismo na adoo do chamado 
modelo newtoniano. (22) O resultado disso no paganismo da antigidade era uma religiosidade em que a palavra de ordem era moderao (grego sophrosyne), (23) expressa 
na frase "nada em demasia" inscrita em todos os templos de Apolo, junto ao famoso "conhece-te a ti mesmo" (24) (o mesmo sentimento aparece na expresso aristotlica 
in medio virtus). (25) As religies pags da sia na sua maioria ainda mantm esta tradio de reverncia, de reticncia e de moderao. A civilizao ocidental 
no pratica nem compreende essa reverncia e o neo-paganismo, portanto, difere do seu ancestral neste importante aspecto. Ao contrrio, o neo-paganismo diviniza 
o homem,  a religio do homem como o novo deus, pregando "o valor infinito do ser humano" e "a autonomia do pensamento crtico." (26) O neo-paganismo confunde-se, 
portanto, com o humanismo contemporneo, o qual se transformou em uma quase-religio. (27) No movimento da Nova Era, que se trata do neo-paganismo em avanado estado 
de putrefao, o humanismo se manifesta de forma mais crassa, como, por exemplo, no fato de que quase todas as prticas, terapias e crenas da Nova Era so voltadas 
para o bem-estar do ser humano, para o seu aperfeioamento, para o seu conforto e prazer. Alm disso, h o pressuposto implcito em todas as diferentes manifestaes 
neo-pags de que o ser humano  capaz de resolver os seus problemas espirituais por si mesmo, atravs de exerccios, meditao ou utilizao "racional" (ou irracional) 
de objetos naturais como plantas e cristais. 

 evidente que um retorno mais fiel ao paganismo da antigidade no seria a soluo para a busca religiosa do ser humano moderno, e muito menos do ser humano ps-moderno. 
Apenas a f crist possui aquilo que o ser humano necessita e busca. A piedade crist no  somente superior  piedade pag (piedade esta que, como dissemos, o neo-paganismo 
no possui), mas  uma piedade qualitativamente diferente. Um aspecto fundamental da piedade crist est em reconhecer-se como criatura diante do Criador. Qualquer 
piedade que torne opaca a distino entre o Criador e as criaturas  inerentemente incompatvel com a piedade crist. Como afirmou Chesterton, a natureza no  minha 
me; na verdade, ela  minha irm, como dizia Francisco de Assis. Mais importante que isso  o fato de que a piedade crist assume como pressuposto a verdade teolgica 
do pecado original. O ser humano no  apenas um ser corrompido at o mais profundo do seu ser, mas  tambm corrompido em todos os aspectos do seu ser, inclusive 
sua razo, que sofre os chamados efeitos noticos do pecado. Nossa razo no  confivel, somos constantemente condicionados pelos impulsos recebidos do meio em 
que vivemos, e somos igualmente impulsionados por instintos inconscientes sobre os quais no temos qualquer controle. Mas a diferena crucial e primordial entre 
a piedade crist e a piedade pag est na certeza crist de que no h nada que um ser humano possa fazer para obter o favor divino. A piedade pag tem como elemento 
fundamental o esforo humano para obter o favor divino por meio de sacrifcios, rituais e promessas. Infelizmente muitos cristos deixam-se iludir pela mentalidade 
pag que continua influenciando a igreja, levando muitos a abraar uma cosmoviso pag, ainda que sob o disfarce de elementos cristos. A piedade crist tem, como 
ponto de partida, o render-se diante da soberania divina, o tornar-se receptculo da graa divina imerecidamente outorgada queles que humildemente se aproximam 
de Deus em um ato de arrependimento pelo pecado, contrio sincera e confiana no perdo divino. 

B. Moralidade

O que chamamos, a seguir, de moralidade objetiva e absoluta, refere-se ao fato de que os antigos pagos que levavam a srio o seu paganismo insistiam na existncia 
de leis morais inquestionveis, inegociveis e permanentes. Essas leis morais eram vistas como naturais, evidentes na natureza das coisas, descobertas e no criadas 
pelo homem. O neo-paganismo procurou resgatar essa moralidade racionalista pag, lev-la s ltimas conseqncias e adapt-la  realidade da vida moderna. Esse extremo 
racionalismo acabou se revertendo em um irracionalismo, e por fim tornou-se relativista, subjetivista e pragmtico, chegando-se lentamente  concluso de que o ser 
humano cria suas prprias leis morais, e que estas variam conforme o tempo e a cultura. Os valores morais de um indivduo no podem ser considerados errados, pois 
no existe um padro ou norma absolutos que determinem o certo e o errado em questes ticas. A grande imoralidade do ponto de vista neo-pago  justamente dizer 
que algo  moralmente errado. O grande erro  dizer que algum tipo de comportamento  errado. O nico absoluto  que no h absolutos. A nica coisa que deve levar 
algum a sentir-se culpado  essa mesma pessoa sentir-se culpada por algo. 

Este relativismo moral de hoje em dia  o correspodente moderno do politesmo da antigidade. O que est verdadeiramente por trs dessa grande variedade de moralidades, 
de bens morais,  uma enorme variedade de deuses modernos: o sucesso, a felicidade, o sexo, o dinheiro e o progresso, por exemplo. O neo-paganismo , portanto, no 
apenas uma forma de humanismo (de divinizao do ser humano), mas tambm uma forma de politesmo idlatra em que cada ser humano torna-se um deus, um absoluto sagrado, 
transmissor em vez de receptor da lei moral. (28)

Mas isso no significa que um retorno  moralidade pr-crist  a resposta. Essa alis, tem sido a proposta da filosofia moderna racionalista no ltimos trezentos 
anos. (29) A tica crist compartilha da objetividade e da absolutividade caractersticas da tica pag (que o neo-paganismo no possui), mas as semelhanas terminam 
a.  bem verdade que a tica crist tem sofrido a m influncia da filosofia racionalista, e tem adquirido dessa forma uma similaridade  tica pag maior do que 
 recomendvel. Mas sob o prisma correto percebe-se que os pontos de vista pagos e cristos so radicalmente diferentes. Enquanto a tica racionalista encontra 
seu fundamento na supremacia e na autonomia da razo humana, a tica crist fundamenta-se na revelao especial de Deus, nas Escrituras Sagradas. A tica racionalista, 
quando testa, sugere que Deus aprova certa atitude ou comportamento humanos porque eles so bons em si mesmos. Creio que a tica crist deve opor-se a esta cosmoviso 
e sugerir o oposto, isto , que uma certa atitude ou comportamento humanos so bons porque Deus os aprova. Essa inverso ilustra a natureza essencialmente diversa 
e em certo sentido oposta das ticas crist e clssica-pag.

C. Religiosidade

Finalmente, o senso de transcendncia a que em seguida nos referimos  o maravilhar-se diante do mistrio, que levava o pago pr-cristo ao ato de adorao. No 
mundo moderno, o sentido, o instinto e a prtica da adorao per se entraram em declnio. Na civilizao ocidental  cada vez menor o nmero de pessoas que adoram 
seja quem ou o que for. Mesmo em nossas igrejas temos visto essa influncia nefasta do neo-paganismo, levando nossas comunidades a adotar liturgias em que o sentimento 
de reverncia cede lugar  descontrao e o bem-estar do adorador torna-se mais importante que sua contrio e dedicao. Os efeitos se fazem presentes tambm na 
teologia moderna, em que as doutrinas so desmitologizadas, desmiraculizadas e desdivinizadas. Assim, at mesmo telogos cristos tornaram-se adeptos da mentalidade 
moderna neo-pag, uma vez que o neo-paganismo, diferentemente do velho paganismo da antigidade, abandonou a crena no sobrenatural e no transcendente e tornou-se 
naturalista e imanentista. Aos poucos a religiosidade neo-pag foi-se tornando, portanto, no somente uma forma de humanismo disfarado e uma re-edio piorada do 
politesmo, mas tambm uma forma popular de pantesmo. O pantesmo popular moderno  uma religiosidade muito confortvel em que Deus  transformado numa espcie 
de "fora"  la Guerra nas Estrelas, disponvel sempre que necessrio, mas que no incomoda. (30)  conveniente para os seres humanos verem-se como "bolhas da grande 
espuma divina" em vez de compreenderem-se como filhos rebeldes de um Pai divino e justo, desesperadamente carentes de se reconciliarem com ele, e absolutamente impotentes 
no que se refere a essa condio espiritual. O pantesmo rejeita qualquer idia que se assemelhe ao conceito bblico de pecado porque pecado implica em separao 
entre Deus e o pecador (Rm 3.19-20; 5.12; 8.7-8; 11.32), e ningum pode estar separado da totalidade. Por isso, no pode haver temor de Deus sob uma perspectiva 
pantesta. Portanto, do ponto de vista neo-pago, o que a Bblia chama de "princpio da sabedoria" (Pv 1.6)  aquilo que precisa ser erradicado das mentes acima 
de tudo.

A soluo, portanto, no se encontra em uma apropriao mais cautelosa ou mais exata do paganismo clssico pr-cristo. Apenas a f crist possui as respostas para 
os problemas prticos, tericos e religiosos do mundo de hoje. O senso de transcendncia do paganismo no pode ser visto como equivalente ao senso de transcendncia 
cristo. Este ltimo  qualitativamente diferente daquele. No   toa que a mais explicitamente pag de todas as heterodoxias modernas, o desmo, seja uma teologia 
que enfatize a transcendncia divina ao preo da imanncia divina. A f crist ortodoxa rejeita ambas as opes radicais de transcendncia (desmo) e de imanncia 
(teologia liberal do sculo XIX) das correntes teolgicas que buscaram a sntese do paganismo com o cristianismo. A concluso a que se chega  que o neo-paganismo 
acaba por cair, ou no racionalismo, ou no irracionalismo. Os grandes pensadores cristos dos ltimos sculos, percebendo essa terrvel encruzilhada, insistiram na 
necessidade de enfatizar a totalidade humana, de salientar o fato de que o ser humano precisa ser compreendido em sua inteireza, sem ser dividido, fracionado, compartimentalizado. 
O ser humano no  apenas razo, ou emoo, ou vontade, ou corpo, ou esprito. O ser humano  um todo, e s pode ser compreendido corretamente se visto como um todo. 
Minha opinio  que teorias dicotomistas ou tricotomistas so racionalismos que devem ser rejeitados. Afirmando a unidade do ser humano, e as simultneas e completas 
transcendncia e imanncia de Deus, o cristianismo no deixa espao para noes pantestas, e se mostra superior tanto ao paganismo quanto ao neo-paganismo. 

Post-Scriptum

Como afirmei no incio, a chamada Nova Era no  uma conspirao. Mas na unificao dos inimigos da f crist, a saber, pantesmo, politesmo e humanismo, unificao 
esta levada a cabo pelo neo-paganismo, pode-se perceber a estratgia do inferno, que todavia no pode prevalecer contra a igreja. Pelo contrrio,  a igreja que 
est por lhe arrombar as portas (Mt 16.18). No Calvrio, quando as foras anti-crists dos mundos grego, romano e hebreu se uniram na crucificao de Cristo (fato 
este simbolicamente representado na acusao contra Cristo afixada na cruz, escrita em trs lnguas: Lc 23.38; Jo 19.19-20), o triunfo do mal foi tambm a derrota 
do mal, e a morte do Filho de Deus significou a redeno do ser humano (ver Cl 1.13-14). Ns estvamos condenados pelas nossas transgresses, e Deus nos deu vida 
em Cristo, perdoando-nos nossos delitos, "tendo cancelado o escrito de dvida que era contra ns e que constava de ordenanas, o qual nos era prejudicial, removeu-o 
inteiramente, encravando-o na cruz; e, despojando os principados e as potestades, publicamente os exps ao desprezo, triunfando sobre eles na cruz" (Cl 2.13-15). 
Certamente, o neo-paganismo de nossos dias estar em breve to morto e enterrado quanto o velho paganismo dos antigos est hoje. E o Deus revelado em Jesus Cristo, 
aquele que pronunciou a primeira palavra, ter novamente a ltima palavra. "Eu sou o Alfa e o mega, diz o Senhor Deus, aquele que , que era, e que h de vir, o 
Todo-poderoso" (Ap 1.8).

1 G. K. Chesterton (1874-1936)  um autor que precisa ser mais lido no Brasil. Chesterton era um grande amigo de C. S. Lewis. Seus livros ensinam como se faz filosofia 
crist de primeira qualidade e foram algumas das melhores respostas crists ao pensamento moderno. Eu recomendo, por exemplo, os livros Orthodoxy (Nova York: Doubleday, 
1990 [1908]), Heretics (Londres: G. Lane, 1905) e The Everlasting Man (San Francisco: Ignatius Press, 1993 [1925]).

2 Chesterton, The Everlasting Man, 237.

3 Ibid., 237-38. Minha traduo.

4 Para saber mais sobre o chamado ps-modernismo, ver Stanley J. Grenz, Ps-modernismo: Um Guia para Entender a Filosofia do Nosso Tempo (So Paulo: Vida Nova, 1997). 
Esse livro  uma boa introduo ao assunto. Outros livros que podem ser de auxlio nesse complicado tema filosfico e cultural so: Brian D. Ingraffia, Postmodern 
Theory and Biblical Theology (Cambridge, Inglaterra: Cambridge University Press, 1995), especialmente pp. 167ss.; J. Richard Middleton e Brian J. Walsh, Truth Is 
Stranger than It Used to Be (Downers Grove, Illinois: InterVarsity Press, 1995), especialmente a primeira parte, pp. 7-84; David S. Dockery, ed., The Challenge of 
Postmodernism (Wheaton, Illinois: BridgePoint, 1995); e Gene Edward Veith, Jr., Postmodern Times (Wheaton: Crossway, 1995). Ver tambm o meu artigo "A Morte e a 
Morte da Modernidade: Quo Ps-moderno  o Posmodernismo?" Fides Reformata 1:2 (Julho-Dezembro 1996), 59-70.

5 O que se chama de modernismo  a cosmoviso que prevaleceu durante os ltimos trs sculos, caracterizada pelo seu cientificismo, historicismo, racionalismo, e 
otimismo humanista, entre outras coisas. Ver Robert B. Pippin, Modernism as a Philosophical Problem (Oxford: Blackwell, 1991).

6 Chesterton, Orthodoxy, 259. Minha traduo.

7 Ver Peter Gay, The Enlightenment: The Rise of Modern Paganism (Nova York: W. W. Norton & Company, 1966), 256-321. A teoria bsica de Peter Gay serviu tambm de 
base para este artigo, isto , que "o iluminismo foi uma mistura voltil de classicismo, impiedade, e cincia; les philosophes, resumindo, eram pagos modernos." 
Ibid., 8.

8 Os especialistas divergem, contudo, quanto ao relacionamento e envolvimento entre humanistas e reformadores, e se seria historicamente correto considerar estes 
um sub-grupo daqueles. Ver, por exemplo, os estudos do erudito calvinista tcheco Josef Bohatec sobre esse assunto: Die Religionsphilosophie Kants, 1938, reimpresso 
em 1966.

9 Confira Gay, The Enlightenment, 3-27.

10 Ver Immanuel Kant, Religion within the Limits of Reason Alone (Nova York: Harper Torchbooks, 1960).

11 Ver, por exemplo, as populares obras de fico de Frank Peretti (e.g., Este Mundo Tenebroso), e livros como: John Bevere, The Bait of Satan (Orlando: Creation 
House, 1994) e Bob Larson, Straight Answers on the New Age (Nashville: Nelson Publishers, 1989). No que estes livros sejam imprestveis, ou que seus autores sejam 
charlates. Mas h uma atitude que me parece errada entre os chamados "profetas da desgraa" do evangelicalismo americano, uma vontade de formular teorias msticas 
e maniquestas de conspirao e de uma espcie de "ocultismo cristo" que considero heterodoxo e prejudicial para a sade espiritual da igreja.

12 Para saber mais sobre o tema "batalha espiritual," ver o livro de David Powlison, Power Encounters: Reclaiming Spiritual Warfare (Grand Rapids: Baker, 1995) e 
tambm o livro de Augustus Nicodemus G. Lopes, O que Voc Precisa Saber sobre Batalha Espiritual (So Paulo: Editora Cultura Crist, 1997).

13 Ainda que eu esteja aqui fazendo uso da expresso cunhada pelo pensador ps-moderno Michel Foucault em Arqueologia do Conhecimento, isso no significa que estou 
adotando ipsis litteris o mtodo do filsofo francs, que por sinal possui boas qualidades.

14 O mtodo aqui adotado enquadra-se melhor dentro da tradio estabelecida pelo filsofo calvinista holands Herman Dooyeweerd. Ver, por exemplo, Roots of the Western 
Culture (Toronto: Wedge Publishing Foundation, 1979). 

15 Ver o captulo "Christianity and the New Paganism," em Peter Kreeft, Fundamentals of the Faith: Essays in Christian Apologetics (San Francisco: Ignatius Press, 
1988), 102.

16 Ibid.

17 Citado por Kreeft, Fundamentals of the Faith, 102. Minha traduo. Ver o captulo "The Escape from Paganism," em Chesterton, The Everlasting Man, 232-49, e o 
captulo "Authority and the Adventurer," em Orthodoxy, 141-60.

18 John M. Rist, estudioso de Agostinho e professor na Universidade de Toronto, Canad,  uma das maiores autoridades vivas sobre o pensamento do celebrado bispo 
de Hipona.

19 John M. Rist, Augustine: Ancient Thought Baptized (Cambridge, Inglaterra: Cambridge University Press, 1994), 12. Minha traduo. Eu creio, todavia, que  inadequado 
interpretar a experincia de converso dessa forma. Ainda que haja uma inegvel continuidade, a converso implica numa completa transformao do indivduo no mais 
ntimo do seu ser, e toda continuidade que ocorrer tem que ser interpretada  luz dessa transformao essencial. Na vida do prprio Agostinho podemos ver como toda 
a bagagem trazida do paganismo recebeu em suas mos uma nova significao. Mas a continuidade existe, e talvez a melhor forma de explic-la  perceber que a converso 
representa, no um giro de 180 graus, mas sim um giro de 360 graus, isto , a vida prossegue, e o indivduo inicia, aps sua converso, um longo processo de reavaliao 
de suas idias e concepes atravs do qual ele redimensiona sua existncia. 

20 Kreeft, Fundamentals of the Faith, 102-106.

21 Uma das questes mais controvertidas da histria da teologia refere-se justamente ao grau de penetrao e influncia das idias pags durante a construo do 
edifcio terico da teologia crist. No existem respostas fceis para esse complexo problema. Muito do que h de melhor na teologia conservadora dos ltimos trezentos 
anos representa um esforo no sentido de procurar uma aproximao maior e mais pura ao ensino das Escrituras, livre dos preconceitos e distores provocados pela 
influncia pag na igreja e na teologia crist desde o primeiro sculo at os nossos dias.

22 John Locke e Isaac Newton foram os mais importantes mentores do iluminismo. Todavia, eles funcionaram mais como cones, smbolos de uma revoluo do pensamento 
que propriamente uma influncia concreta em termos de idias que muitas vezes no eram conhecidas ou eram mal compreendidas. Ver, por exemplo, o excelente estudo 
de Gerd Buchdahl, The Image of Newton and Locke in the Age of Reason (Londres: Sheed & Ward, 1961). A fsica newtoniana teve de qualquer modo um papel importante 
no iluminismo servindo de inspirao e paradigma para todas as reas do conhecimento. Boas introdues para os aspectos gerais do pensamento newtoniano, e boas biografias 
de Newton (o mtodo biogrfico ajuda bastante aqueles que, como eu, tm dificuldades de compreender as nuances da fsica newtoniana), so Louis T. More, Isaac Newton: 
A Biography (Nova York: Dover, 1962); J. D. North, Isaac Newton (Oxford: Oxford University Press, 1967); Richard S. Westfall, The Life of Isaac Newton (Cambridge, 
Ingl.: Cambridge University Press, 1993); A. Rupert Hall, Isaac Newton: Adventurer in Thought (Oxford: Blackwell, 1992); Frank E. Manuel, The Religion of Isaac Newton 
(Oxford: Clarendon Press, 1974) e I. Bernard Cohen, The Newtonian Revolution (Cambridge, Ingl.: Cambridge University Press).

23 Ver os dilogos de Plato, especialmente Mnon e utifron.

24 O famoso gnothi seauton de Scrates.

25 Ver Aristteles, tica a Nicmaco. Como sugere Chesterton, "o paganismo declarava que a virtude estava no equilbrio; o cristianismo declarou que a virtude est 
no conflito: a coliso de duas paixes aparentemente opostas". Orthodoxy, 92. "So Francisco, ao louvar tudo que  bom, conseguia ser um otimista mais exagerado 
que Walt Whitman. So Jernimo, ao condenar toda maldade, era capaz de pintar um quadro ainda mais escuro do que Schopenhauer." Ibid., 96. "O leo se deitar com 
o cordeiro. Mas note que este texto tem sido interpretado de forma muito suave. Ns somos constantemente assegurados por nossas tendncias tolstoyanas que, quando 
o leo se deita com o cordeiro, ele se torna igual a um cordeiro. Mas isso  uma anexao brutal e um imperialismo da parte do cordeiro. Isso  apenas o cordeiro 
absorvendo o leo em vez de o leo comendo o cordeiro. O verdadeiro enigma : pode o leo se deitar ao lado do cordeiro e todavia manter toda sua ferocidade real? 
Esse  o enigma que a igreja tentou resolver; esse  o milagre que ela alcanou." Ibid., 98.

26 Gay, The Enlightenment, 226.

27 O conceito de quase-religies foi criado nos anos 60 pelo telogo neoliberal Paul Tillich para referir-se a fenmenos secularistas, como, por exemplo, o marxismo, 
o nazismo, o humanismo e o cientificismo.

28 Ver, por exemplo, o volume de ensaios sobre cristianismo e cultura editado por Os Guinness e John Seel, No God but God: Breaking with the Idols of our Age (Chicago: 
Moody Press, 1992).

29 A tica moderna em geral tem privilegiado uma metodologia racionalista. Tanto a tica deontolgica de Kant e seus seguidores, quanto a tica utilitarista dos 
ingleses Bentham e Stuart Mill so calcadas na tica pag, e desconhecem a noo de uma tica baseada na revelao especial de Deus. Os pressupostos bsicos por 
trs das ticas racionalistas so a supremacia e a autonomia da razo humana. 

30 Ver a crtica que o celebrado pensador cristo ingls C. S. Lewis j fazia nos anos 40 a essa mentalidade em seu livro Miracles (Nova York: Macmillan, 1947).

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Reverendo Gilson de Oliveira Pastor da Igreja Presbiteriana de Nova Vida
